Capítulo 4

11 de fevereiro de 2016







Numa determinada noite, Jonas entrou na boate e avistou a mulher em cima do palco, dançando. Não acreditou. Piscou os olhos e olhou outra vez para ter certeza de que era ela. Pior que era. Aproximou-se. Teve vontade de puxá-la de lá e jogá-la nos ombros. Bem que diziam que pau que nascia torto nunca se endireitava. Sentiu raiva. Raiva por ter sido tão babaca. Aproximou-se mais e viu o olhar assustado dela em sua direção. Aquele olhar de alguém quando era pego em flagrante. Em pleno ato. Ele bem que conhecia aquele olhar. Ela, então, parou, enquanto a música tocava e as companheiras continuavam dançando sobre o alto tablado. Verônica, então, desceu imediatamente, com o rosto empalidecido. Sentindo o sangue ferver, Jonas deu-lhe as costas e saiu apressadamente. Não responderia mais por si, já havia avisado. Ela foi atrás, chamando-o pelo nome. Saíram do estabelecimento. E então, já na rua, ele dirigiu-se ao carro.
— Jonas, me deixe explicar... - adiantou-se ela, aflita.
— Entra no carro - mandou, abrindo a porta.
— Por favor...
— Entra no carro!
Insegura, ela obedeceu. Jonas deu a volta, entrou e ligou o automóvel. Depois dirigiu feito um louco de volta para a casa. Os dois ficaram em silêncio. Por um momento Verônica pensou que eles fossem bater. Sentiu calafrios e teve náuseas. Ele sequer disse uma palavra. Ela fitou-o, assustada, mas não teve coragem de comentar qualquer coisa que fosse. Torceu para que ele chegasse mais calmo em casa.
Quando chegaram, ela se livrou imediatamente do cinto de segurança, e saiu apressadamente do carro. Entrou dentro de casa e teve vontade de se trancar no quarto, mas sabia que essa não era a solução mais sensata a tomar. O melhor seria conversar e explicar a Jonas que tudo na boate não passava de uma brincadeira. De uma brincadeira dela com as colegas. Apenas isso. Fora na boate àquela noite porque era aniversário de Alice. No entanto, quando ele finalmente entrou, eles trocaram olhares. Os olhos fitos nos dela denotavam desprezo. Ele não disse nada. Apenas a observou. Mas ela sentiu a tensão no ar. Em seguida, Jonas se aproximou e, sem falar nada, deu-lhe um tapa. Verônica virou o rosto, com a mão nele. Depois encarou o namorado, perplexa.
— Pegue suas coisas e saia daqui - ordenou ele.
Ela sentiu as lágrimas encherem os olhos.
— Então gosta de se exibir pra um bando de bêbados imundos em cima de um palco?
— Eu vou pra onde, Jonas? - sussurrou, a voz falhando.
— Não é problema meu - e deu-lhe as costas.
Ela abaixou os olhos, sentiu-se sem chão. Não respondeu nada. Nem questionou. Apenas dirigiu-se ao quarto e imediatamente pegou uma mala qualquer. Passou a tirar as coisas do armário rapidamente e a colocar de qualquer jeito dentro da mala. As lágrimas escorriam copiosamente pelo rosto. Eram mais de onze horas da noite. O que faria uma hora daquela no Rio de Janeiro, Verônica não sabia. O coração batia forte e o medo e a aflição a dominavam. Jonas parecia irredutível e ela sabia que não adiantaria implorar. Então, quando apareceu na sala, já com a mala pronta, pôde avistá-lo em pé, debruçado no muro da varanda. Parecia pensativo. Sem dizer nada, ela seguiu até a porta, com a intenção de fazer o que ele mandara minutos atrás - ir embora, mas para a sua grande surpresa, ele a pegou pela mão e a puxou para si. Em seguida a agarrou ali mesmo, na sala. Foram para a cama e protagonizaram mais uma sessão de sexo intenso e selvagem.
No dia seguinte, Verônica acordou e se viu sozinha na cama. Jonas, certamente, já havia saído naquela manhã rumo ao trabalho. O casal havia tido uma noite tórrida cheia de emoções. O namorado a havia beijado e amado até tarde da noite. Verônica levantou-se e percebeu que devia ser mais que dez horas da manhã. Olhou-se no espelho. Observou seu reflexo refletido no objeto e sentiu tristeza. Estava cansada daquilo tudo. Cansada e magoada demais. Não gostava da pessoa que havia se transformado. Passou a mão nos cabelos desgrenhados e suspirou. No dia anterior o companheiro havia ultrapassado a barreira do limite. Tinha lhe agredido com um tapa no rosto e a mandado embora. Depois voltara atrás. Mas aquilo não mudaria o que aconteceu. O que ele faria no futuro? A surraria? A mataria? Chega. Seria o fim. Sentindo-se mais determinada do que nunca, ela resolveu tomar uma decisão. Tomaria um banho e daria um fim àquilo tudo. Minutos depois vestiu uma roupa simples, pegou algum dinheiro que sabia que Jonas guardava dentro de casa, e com a mala já pronta, saiu. Não deixaria rastros. Nenhum bilhete sequer. Apenas iria embora. Sumiria da vida dele para sempre e nunca mais o veria outra vez. Tentaria uma nova vida. Tentaria ser livre, ser feliz.


***


Naquela mesma noite, Jonas chegou com um buquê de rosas vermelhas em casa. Estava agitado e entusiasmado, pois havia recebido uma promoção na polícia e precisava comemorar. A ideia era falar com Verônica e, então, eles sairiam para comer fora. Antes disso ele passara na floricultura para comprar o mais lindo buquê de rosas que pudesse encontrar. Sabia que havia agido mal na noite anterior e precisava se redimir. Logicamente não seria o bastante, mas já era alguma coisa. No fim da noite planejava pedir Verônica em casamento. Sim, tentaria mais uma vez o matrimônio e esperava que dessa vez conseguisse ser feliz.
— Verônica, amor, cheguei!
Largou o buquê de rosas na mesa e a procurou pelo quarto. Não a encontrou. Queria contar-lhe a novidade. Silêncio. Nem sinal da mulher. Onde ela havia ido? Jonas procurou pela cozinha, banheiro e área de serviço. Nada. Onde Verônica poderia estar? A casa parecia do jeito que estava quando ele saiu de manhã cedo. Confuso, Jonas pegou o celular e ligou para a mulher. Fora de área. Depois deu desligado. Tentou insistentemente e nada. O celular só dava desligado. Tentou a colega dela, Alice, e essa não sabia a respeito de Verônica. As horas se passaram e ele começou a ficar preocupado. À noite, foi até à boate e não a encontrou lá. Interrogou as pessoas e ninguém sabia de nada ou a havia visto a ex-dançarina naquele dia. Até que se passaram dias, semanas, meses...
Verônica nunca mais voltou para casa e Jonas já entendia o porquê. A mulher havia ido embora. Sumira de sua vida, sem deixar rastros. Talvez para sempre. Jonas chorou por dentro no dia em que se deu conta disso, como um menino perdido e abandonado. Era ruim demais sentir o sabor do desprezo, ainda que ele merecesse. Não achava que o que havia feito com ela era certo. Não estava orgulhoso do tapa que lhe dera. Contudo, a vingança de Verônica fora amarga demais. Se ela queria arrasá-lo, conseguiu. Melhor seria que tivesse ido embora na cara dele, no calor da briga e não daquela forma em secreto. O fato é que daquele dia em diante, Jonas passou a ter mais problemas no trabalho do que antes, inclusive havia aberto mão da promoção. Estava se lixando para a polícia, para as pessoas, para o mundo. Estava se lixando para a vida.


***


Os meses se passaram e Verônica viu sua barriga crescer. Estava prestes a dar à luz. Uma menina. Se chamaria Julia. Não teria pai. Mas isso não seria problema, pois ela faria o possível e o impossível para que fosse mãe e pai ao mesmo tempo da bebê. Só queria que sua filha tivesse saúde e muito amor, já que ela própria havia sido praticamente órfã a vida inteira e o que recebera da vida fora só sofrimento e dificuldade. Havia procurado a tia e essa a recebera com carinho. Mas algum tempo se passou e as coisas não foram tão boas como Verônica imaginava. Sua filha nascera bem e era muito amada. No entanto, dois anos após seu nascimento, sua tia falecera. Como viviam de aluguel, Verônica teve que devolver a casa, já que não tinha condições financeiras para arcar sozinha com as despesas. Foi aí que conheceu Marcos e ele fora como um anjo em sua vida. A auxiliou nesse período de dificuldade e um laço de amizade surgiu entre os dois. Começaram a namorar e os primeiros meses de relacionamento foram bons, mas tudo logo começou a mudar - como sempre acontecia na vida de Verônica. Marcos se mostrara um sujeito egoísta e sistemático. Tinha manias e queria tudo à seu modo. Nada o agradava e qualquer coisa o irritava. Até mesmo a presença de Julia passou a incomodá-lo frequentemente. Ele também já havia demonstrado ser violento e na primeira briga do casal agredira Verônica com tapas e empurrões. Desde então as discussões passaram a ser frequentes. Sempre por besteira. Por causa de casa desarrumada, comida que não era pronta na hora, meias e cabides fora do lugar. Mas o cúmulo fora o modo como ele passara a tratar a menina. Com frieza e desprezo. Então, após uma nova briga, Verônica resolveu sair de casa. Em segredo. Não tinha para onde ir, mas sairia assim mesmo. Foi então que pensou em procurar Jonas e contar-lhe a verdade sobre a paternidade de Julia.


***


Jonas havia sido baleado em ação e estava recebendo ameaças de morte. Foi por isso que o seu superior resolveu conceder-lhe uma licença por tempo indeterminado. Contrariado, ele questionou. Disse que não tinha medo de ameaças e que precisava ficar na ativa para não pirar, mas como percebeu que o problema era sério um tempo depois acabou se conformando com a ideia. Mudou-se para a região dos lagos, onde morava seu pai com a nova esposa dele. Ao lado da casa, Jonas construiu uma casa independente e confortável, onde passou a viver sozinho com um cachorro - seu companheiro. Também arranjou um trabalho como motorista de lancha. Sua renda mensal até que era boa, se ele pesasse a remuneração da polícia com a atual, e ele até pensava em breve em fazer uma viagem para fora do país. Portugal, quem sabe? Sim, seria bom sair um pouco do Brasil.


***


Quando o delegado conversou com a jovem, ficou comovido. Ela lhe contou toda sua história e era de arrepiar. Verônica era muito bonita e apesar da vida complicada, mantinha uma beleza singular. Parecia completamente sozinha e desamparada. Sem família, sem marido, sem emprego, sem casa, com uma filha pequena nos braços... foi impossível para Neto não desejar ajudá-la.
— Então, você procura pelo Jonas - concluiu o homem.
— Sim, senhor.
— E posso saber o por quê?
— Bom, é que ele não sabe, mas é o pai de minha filha. Tivemos um relacionamento no passado e fui embora sem dizer que estava grávida.
— E vocês nunca mais tiveram contato?
— Não, senhor.
O homem forte à sua frente, suspirou. Que problemão era aquele que estava em suas mãos! Não podia revelar onde estava morando o policial.
— Por favor, senhor, preciso que me ajude...
— Bom, você me disse que não tem mais ninguém nesse mundo e que acaba de se separar de seu atual companheiro - e olhando mais uma vez para o olho roxo dela - a propósito, foi ele quem te fez isso?
Ela baixou os olhos, visivelmente envergonhada e ele soube que a resposta era afirmativa.
— Devia dar queixa. Vermes como esses não deviam ficar livres por aí.
— Eu sei.
Ele continuou a fitando, pensativo.
— Certo. Então você quer que eu lhe diga o paradeiro do Jonas.
— Por favor. Eu não tenho mais ninguém com quem contar. Minha filha e eu estamos dormindo em abrigos. Nossas refeições também estão sendo feitas lá - e sentindo a voz falhar - não estou preocupada comigo, mas sim com Julia. Ela tem apenas três anos de idade. É só uma criança. E sei que o senhor pode me ajudar...
O homem pensou um pouco. Respirou fundo. Por questão de ética, não poderia dizer onde estava seu funcionário. Ainda mais no caso de Jonas, que havia recebido licença por causa de ameaças de morte e mudara-se por cautela. Mas olhando para aquela mulher... tão jovem, tão bonita, o rosto machucado... olhando para a criança adormecida em seu colo, tão pequena e frágil... imaginou as duas numa fila de abrigo atrás de almoço e lugar para dormir. Ficou com o coração na mão.
— Certo. Vou lhe dizer onde ele está. Mas, por tudo que é mais sagrado, que isso fique entre nós. Não fale pra ninguém que fui eu que contei.
— Sim, senhor. Obrigada.


***


Já na rodoviária, aguardando o ônibus, Verônica pegou a filha no colo. Estavam indo rumo a região dos lagos. Sabia que Jonas estava morando lá. Em São Pedro da Aldeia – para ser mais exata.
— Mamãe, tô com fome... - murmurou a pequena, envolvendo-lhe o pescoço. Verônica, então, pegou um pacote de biscoito da bolsa. Agradecia muito a Deus por ter colocado aquele homem, o superior da polícia civil, em seu caminho, pois o delegado não apenas a ajudou informando onde Jonas estava como também a ajudou com despesas como passagem de ônibus e outras coisas mais. Após subir no ônibus com a menina, Verônica sentou-se. Agora era torcer para que o encontro com Jonas fosse tranquilo e positivo, pois ele era sua última esperança. Já havia até mesmo pensado em largar a filha num lugar seguro e ir embora, pois sozinha seria mais fácil se virar. Sentiu uma lágrima lhe queimar o rosto ao pensar na ideia, mas se não tivesse solução, teria que fazer aquilo por Julia.
— Vamos pra casa, mamãe? - indagou a pequena, os olhinhos inocentes. Não tinha ideia do rolo que era a vida da mãe.
— Vamos procurar um moço, meu amor. E torcer pra que ele seja bonzinho com a gente.
— Um moço?
—É.
— E o Marcos?
— O Marcos está na casa dele, Julia... vamos procurar um moço que você ainda não conhece.
A menina calou-se, segurando um biscoito. Parecia absorver a ideia.
Silêncio.
— Eu não gosto mais do Marcos...
— Oh, querida, eu sei...
— Ele é mau... – e abraçou a mãe, ameaçando choro.
— Tá tudo bem agora, ok? Ninguém mais vai fazer mal a gente.
A pequena agarrou-se fortemente em seu pescoço e Verônica lamentou por ter causado tanto sofrimento à filha. Nada daquilo era o que ela havia planejado. Beijou o rosto de Julia e torceu para que ela logo se esquecesse de tudo o que havia presenciado nos últimos meses de vida. E recomeçariam...